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Estarei pronto para voltar aos treinos após uma lesão?

Voltar ao treino depois de uma lesão não depende só de ter passado tempo, porque o corpo responde à carga, à velocidade, ao tipo de movimento e à forma como esse movimento acontece.

É por isso que a pergunta certa é: “o meu corpo já tolera o que o meu desporto me vai pedir?” A literatura sobre o regresso ao desporto aponta para um processo faseado e guiado por critérios. 

O critério mais utilizado é: se já consegue andar bem, então já pode correr; se já corre, então já pode jogar. O problema é que competir ou treinar com intensidade, exige travar, arrancar, mudar de direção, absorver o impacto, repetir esforços e manter o controlo face a fadiga.

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As lesões que mais costumam deixar sequelas

Nem todas as lesões são iguais. Estas são as mais comuns e que mais costumam deixar sequelas:

Entorses do tornozelo

Uma parte dos casos evolui para instabilidade crónica, com sensação de falseio, perda de confiança, desequilíbrio e repetição de entorses. O que costuma ajudar não é apenas esperar que passe, é recuperar a força, o controlo unipodal, o equilíbrio, a propriocepção, a capacidade de travar e voltar a mudar de direção sem o tornozelo falhar.

Lesões do joelho

Mesmo após uma cirurgia ou após uma recuperação aparentemente boa, podem manter-se défices de força durante bastante tempo, sobretudo no quadricípite e nos isquiotibiais. Há ainda dados que mostram uma incidência relevante de segunda lesão após o regresso ao desporto. Nestes casos, faz diferença medir de forma objetiva: força, saltos, travagem, mudança de direção, tolerância a carga repetida e confiança real no joelho.

Lesões musculares da face posterior da coxa

A dor pode baixar depressa e dar a sensação de que está tudo resolvido, mas a recidiva continua a ser um problema conhecido, e há atletas que regressam com défices residuais. O que ajuda aqui é fazer a ponte certa entre a reabilitação e o gesto desportivo: força excêntrica, progressão de corrida, aceleração, sprint, travagem e exposição gradual ao alongamento rápido do músculo.

No ombro

Pode acontecer sobretudo após luxação/instabilidade ou em alguns quadros da coifa dos rotadores, o braço pode parecer funcional no dia a dia e falhar quando aparece velocidade, contacto ou amplitude alta. Nestes casos, recuperar a mobilidade não chega. É necessário voltar a ganhar força acima da cabeça, controlo da escápula, estabilidade e confiança no gesto específico do desporto.

Mobilidade funcional

Recuperar a mobilidade não significa apenas conseguir dobrar ou esticar uma articulação. O que interessa é a mobilidade funcional: conseguir executar os padrões que o desporto pede sem bloqueio, sem proteção excessiva e sem desvios evidentes.

Num joelho, por exemplo, interessa conseguir agachar, travar, descer, impulsionar e aterrar sem rigidez que empurre a carga para o outro lado. No ombro, interessa elevar, rodar e controlar o braço sem fuga da escápula, sem perda de força e sem medo em amplitudes altas. 

Perfeição

O lado lesionado tem de ficar igual ao outro? A simetria ajuda, mas não resolve tudo. 

O corpo humano não funciona como uma fotocópia. O que interessa é reduzir diferenças que alterem o gesto e obriguem o corpo a descarregar trabalho para o lado bom. Quando isso acontece, a lesão inicial até pode estar mais calma, mas o padrão continua frágil.

Sinais de inflamação

Depois de uma lesão, o problema nem sempre é a dor no momento. Muitas vezes o sinal mais relevante surge horas depois ou na manhã seguinte. O treino até corre bem, mas aparece um aumento de volume, calor, rigidez, sensação de pressão ou uma dor mais viva ao retomar a carga.

Na reabilitação e no regresso ao desporto, estes sinais são importantes. Uma revisão sobre a resposta mecânica do joelho descreve um princípio prático muito útil: se a dor articular ou o edema surgem após o exercício, mas desaparecem antes da sessão seguinte ou após o aquecimento seguinte, a carga não deve subir; deve manter-se e ser vigiada. Já a persistência ou agravamento destes sinais mostra que o tecido ainda não tolera aquela progressão. A própria literatura sobre a inflamação numa lesão musculoesquelética continua a apontar para sinais clínicos como dor, inchaço e perda de função como referências relevantes. 

Por outras palavras: um joelho que volta a inchar, um tornozelo que acaba o dia mais quente, um ombro que fica mais preso depois do treino ou uma zona lesionada que acorda pior no dia seguinte ainda estão a dar informação relevante.

Força e controlo

Como sequência lógica, a dor desce primeiro e a força recupera-se depois. E a capacidade de produzir força depressa, travar o corpo e absorver o impacto pode demorar ainda mais. Há défices residuais de força, potência e resposta rápida após várias lesões musculoesqueléticas, e esses défices podem manter risco aumentado quando a pessoa regressa cedo demais. 

É por isso que a ausência de dor sozinha não diz assim tanto. É mais importante perguntar:

  • A força já chegou perto do que o desporto exige?
  • O corpo já controla saltos, travagens e mudanças de direção?
  • O lado lesionado já aceita repetições sem quebra clara de qualidade?
  • O treino modificado já corre bem antes de voltar ao treino total?

A cabeça

Há pessoas com testes físicos aceitáveis que continuam a travar o gesto. Não arrancam com confiança, evitam certos ângulos, hesitam no contacto ou entram no treino com medo de repetir a lesão, não é fraqueza, é um fator real no regresso ao desporto.

A literatura sobre o medo de recaída mostra que o receio de uma nova lesão, de dor persistente ou de não voltar ao nível anterior pode influenciar o tratamento, a reabilitação e a decisão de regressar. Por vezes o tecido já tolera mais do que a pessoa acredita. Em outras alturas, o medo é um aviso sensato porque o corpo ainda não está pronto. O ponto importante é: confiança sem base física é risco; base física sem confiança também é prejudicial.

Um regresso faseado

O retorno mais sólido não consiste num salto direto da fisioterapia para o jogo intenso. Em contraste, costuma passar por primeiro tolerar a carga simples, depois a carga mais rápida, depois gestos específicos, depois um treino condicionado, e só então o treino completo e competição. Esse modelo faseado está alinhado com o consenso mais citado nesta área e continua a ser a forma mais sensata de reduzir riscos. 

Uma checklist para ajudar:

  • Dor baixa e estável, sem subida clara durante ou depois da sessão;
  • Ausência de aumento de edema, calor ou rigidez no dia seguinte;
  • Mobilidade suficiente para os gestos do desporto, sem proteção evidente;
  • Força e controlo com diferenças pequenas e sem compensações marcadas;
  • Boa tolerância a treino progressivo antes do regresso total;
  • Confiança real para executar o gesto, não apenas vontade de voltar.

Quando travar e voltar a ser avaliado

No entanto, se houverem sinais como incapacidade para suportar peso, instabilidade , deformidade, dor forte sem melhoria, ou inchaço que não mostra evolução favorável, em entorses e lesões de partes moles, essas são razões válidas para uma nova observação, sobretudo quando a função continua muito limitada. 

A tua segurança é a nossa prioridade.

–Equipa Drartus

Perguntas Frequentes Relacionadas:

Faz sentido usar joelheira, tornozeleira ou outro suporte no regresso ao treino?

Em alguns casos, faz sentido usar joelheira, tornozeleira ou outro suporte no regresso ao treino. Pode dar estabilidade, sensação de segurança e ajudar na fase de transição, mas não substitui o trabalho de força, controlo e progressão da carga.

O aquecimento pode mascarar sinais de que ainda não estou pronto?

Pode. Há pessoas que aquecem bem, sentem-se soltas durante a sessão, e só depois notam inchaço, calor, rigidez ou uma pior resposta nas horas seguintes.

Devo tomar anti-inflamatórios ou analgésicos para conseguir treinar?

Tomar medicação pode esconder os sinais do corpo e dar uma falsa sensação de segurança. Quando é preciso medicação para tolerar o treino, convém perceber se a melhor opção é parar ou abrandar.

Há lesões em que convém ser ainda mais cauteloso no regresso?

Sim. Entorses repetidas do tornozelo, lesões do cruzado anterior, lesões musculares com historial de recidiva e alguns problemas do ombro costumam pedir um controlo mais apertado no regresso à intensidade total.

Preciso sempre de ir à fisioterapia depois de uma lesão?

Não. Há lesões ligeiras que melhoram com gestão adequada da carga, descanso relativo e progressão cuidada. A fisioterapia costuma ganhar mais peso quando a recuperação estagna, quando a função não volta ao normal, ou quando a lesão mexe com força, controlo, mobilidade e confiança para regressar ao treino.

Então quando é que a fisioterapia faz mesmo diferença?

Faz mais diferença quando a dor é contínua, rigidez, limitação de movimento, sensação de instabilidade, perda de força, medo de voltar ao gesto ou dificuldade em regressar ao desporto sem compensações. Também costuma ser muito útil depois de cirurgia ou em lesões com maior risco de recaída.

E quando é que não basta fisioterapia e preciso primeiro de avaliação médica?

Quando há deformidade, estalido com suspeita de fratura, dormência, formigueiro, alteração de cor, frio na zona lesionada ou dor muito intensa com agravamento. O mais sensato é excluir algo mais sério antes de pensar apenas em reabilitação.

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